Que é isto que me impregna a alma,
Que feitiço teu fez em mim este encanto,
Que loucura a minha em pensar-te diferente.
Levar-te até à lua e deixar-te a sonhar…
Nunca meu ser deixei voar tanto,
Pois nunca encontrei o perfume certo
No qual pudesse inspirar meus sonhos.
Nunca meu afecto pareceu tão correcto
E mesmo assim achei-o tão errado.
Teu doce e viril aroma impregna meu espírito,
Enquanto me dou conta que é hora de partir.
28 de março de 2014
Esqueleto com cigarro aceso
Ele come gelados no inverno porque a vida é demasiado curta para moldarmos os nossos gostos segundo os gostos do planeta.
- Quero ver o mundo a arder!
Diz isso enquanto esbate sobre a tela camadas grossas de tinta castanha.
- O que pintas?
- Um esqueleto.
- Com esse pincel? Não seria melhor um mais fino?
- Não sou Caravaggio!
Sentado numa cadeira de madeira, de frente para a janela, para vislumbrar o negro da noite, pincela ferozmente. Pincela na tela e na roupa, na roupa que outrora fora imaculadamente branca. Usa sempre roupas brancas, de linho, para pintar.
- Pinto de branco, em noites negras, para misturar o luto humano com o luto do céu.
- Mas o branco não é a cor do luto.
- E quem o diz? Os padres reprimidos e as noivas virgens?
Tem um gira-discos Dallas Classic, especialmente comprado para o único disco de vinil que tem. Está no chão, entre a secretária e o quadro de uma mulher de vestido vermelho esfarrapado que passeia descalça pelas ruas de Paris. Toca Gato Barbieri, sempre Gato Barbieri. Toca desde o primeiro dia em que entrei neste quarto. Toca até o som penetrar no cérebro e criar pedaços finos de vidro que vão cortando o tecido e provocando dores de cabeça tortuosas. Ele parece ser imune a toda esta tortura.
Levanto-me da cama e caminho a seu encontro.
- O que pintas?
- Um cigarro.
- No esqueleto?
- Sim.
- Faltam-lhe pulmões. Como é que fuma sem pulmões?
- Como é que uma sombra fala nos livros de Murakami e tu não te interrogas?
- Mas isso é literatura.
- E isto é pintura!
As paredes negras do quarto contrastam com os quadros luminosos. Todos os quadros que pintou até então estão preenchidos por uma palete de cores leves. Todos, excepto este que ele está a pintar agora. Talvez o fundo negro sirva para contrastar com o esqueleto.
- Não achas que o cigarro merecia uma chama mais acentuada? E essas costelas não estão um pouco irreais, assim afastadas do resto?
- Talvez.
Pinta a chama quase impercetível do cigarro. Pousa os pincéis. Levanta-se, despe a camisa, dobra-a cuidadosamente e coloca-a em cima da cama. Desaperta o cinto das calças de linho, tira-as, dobra-as e coloca-as em cima da camisa. Dirige-se para a janela, senta-se no parapeito. Com o negro do céu, o verde que colora os seus olhos acentua-se.
- O que queres fazer?
- Quero ver o mundo a arder.
Atira-se para fora da janela. Corro para a janela, vejo-o cair e grito:
- Olha que desta vez não será só a orelha, magoarás o corpo todo!
- Quero ver o mundo a arder!
Diz isso enquanto esbate sobre a tela camadas grossas de tinta castanha.
- O que pintas?
- Um esqueleto.
- Com esse pincel? Não seria melhor um mais fino?
- Não sou Caravaggio!
Sentado numa cadeira de madeira, de frente para a janela, para vislumbrar o negro da noite, pincela ferozmente. Pincela na tela e na roupa, na roupa que outrora fora imaculadamente branca. Usa sempre roupas brancas, de linho, para pintar.
- Pinto de branco, em noites negras, para misturar o luto humano com o luto do céu.
- Mas o branco não é a cor do luto.
- E quem o diz? Os padres reprimidos e as noivas virgens?
Tem um gira-discos Dallas Classic, especialmente comprado para o único disco de vinil que tem. Está no chão, entre a secretária e o quadro de uma mulher de vestido vermelho esfarrapado que passeia descalça pelas ruas de Paris. Toca Gato Barbieri, sempre Gato Barbieri. Toca desde o primeiro dia em que entrei neste quarto. Toca até o som penetrar no cérebro e criar pedaços finos de vidro que vão cortando o tecido e provocando dores de cabeça tortuosas. Ele parece ser imune a toda esta tortura.
Levanto-me da cama e caminho a seu encontro.
- O que pintas?
- Um cigarro.
- No esqueleto?
- Sim.
- Faltam-lhe pulmões. Como é que fuma sem pulmões?
- Como é que uma sombra fala nos livros de Murakami e tu não te interrogas?
- Mas isso é literatura.
- E isto é pintura!
As paredes negras do quarto contrastam com os quadros luminosos. Todos os quadros que pintou até então estão preenchidos por uma palete de cores leves. Todos, excepto este que ele está a pintar agora. Talvez o fundo negro sirva para contrastar com o esqueleto.
- Não achas que o cigarro merecia uma chama mais acentuada? E essas costelas não estão um pouco irreais, assim afastadas do resto?
- Talvez.
Pinta a chama quase impercetível do cigarro. Pousa os pincéis. Levanta-se, despe a camisa, dobra-a cuidadosamente e coloca-a em cima da cama. Desaperta o cinto das calças de linho, tira-as, dobra-as e coloca-as em cima da camisa. Dirige-se para a janela, senta-se no parapeito. Com o negro do céu, o verde que colora os seus olhos acentua-se.
- O que queres fazer?
- Quero ver o mundo a arder.
Atira-se para fora da janela. Corro para a janela, vejo-o cair e grito:
- Olha que desta vez não será só a orelha, magoarás o corpo todo!
26 de março de 2014
24 de março de 2014
Ela continua lá...
Eu limito-me a escrever sobre as coisas. Procuro alguma forma de me abstrair desta maldita sociedade que todos os dias me consome e rouba tudo aquilo que possa ser considerado humano, convertendo-me num autómato; numa máquina; em algo desprovido de sentimentos e emoções. O cancro da sociedade humana.
Mas ela continua lá…
É cansativo, no mínimo. Quando se tenta empenhar o nosso esforço sobre a oficina universal e sentimos o peso do nosso passado e de outros pensamentos. Haha! O trabalho fica comprometido. Rio-me pela insignificância do que acabo de me aperceber. Uma resistência inútil. Uma tentativa fugaz de alcançar aquilo que denominamos “civil” ou “humano”. É triste, no fundo. Como tal, levanto-me da secretária e tomo para outros lados.
Mas ela continua lá…
Preparo o meu jantar e tento alimentar a básica necessidade humana de “comer”. Pena que a mente se desvie para outros lados. Um “comer” diferente seria mais apropriado… Desde… Desde…
Não, não irei pensar nisso. Será decerto a minha ruína, como a de muitos outros antes de mim. Quando se lembram do calor, da sensação inigualável do toque de carmesim e da respiração ofegante. Da prenda divina a que todos os seres vivos tiveram acesso. Do trocar de almas e da mistura de sonhos, pesadelos e compreensão da nossa barbárie. Uma selvageria prima de tempos outros. Tempos infinitos desde o processo da criação. Que foi? Acham-me louco por desejar assim tanto isso? Será que as pessoas se esqueceram do básico que as coisas são? Será que…
- Ainda aqui…
Não! Deixa-me! Eu não sou isso. Recuso-me a ser escravo desse pequeno sonho, inegável desejo.
Retiro-me frustrado da cozinha. Talvez música? Sim, música. Acalma-me. Chopin? Ou estarei mais para Bach hoje? Talvez Debussy.
Dirijo-me para o piano e toco. Toco… Viajo por entre o marfim e o ébano. Na procura de uma qualquer estrada musical, para além da escuridão do que me persegue. As notas passam por mim, acompanhadas por um mundo neutro e infinito. Um mundo que não é necessariamente a cores, mas também não se encontra desprovido delas. Vejo infâncias…
Observo passados e aberturas que dão entrada para tantas possibilidades…
É tão giro como a primeira música é sempre uma das mais especiais. Arabesque nº1.
- Lamento, mas contínuo cá. Ainda a tentar resistir-me?
Silêncio! Ahhhh! Como eu desprezo a obsessão que me fazes sentir. A forma como eu poderia pôr um fim a tudo…
Bato no piano, formando um acorde desconhecido pela mente de uma qualquer pessoa sã. O acorde é gritante. A mão procura… Procura algo… A mente ajuda…
- Porque te negas?
Não… Eu não posso. Será nojento. Apenas me vai amarrar mais.
- Shiu… Relaxa!
Ordem suprema do abrir da fenda cerebral! Toda a razão perdida. Apenas instinto. Instinto básico. Procura de sensações. Procura do gosto e de memórias. Memórias ativam.
O suor… O odor. Aquele regresso ao mais puro dos edens que nos foram concedidos. Sim! É isso. O maravilhoso toque que apenas… apenas…
- Eu posso permitir…
Sim! Tu!
- Rejeitas?
Não! Nunca! Não posso. Preciso de mais e mais e mais… Uma e outra vez. As energias não se esgotam. Rejeitar? Nunca!
- Então… Submete-te!
Agora e para todo o sempre! Liberta-me! Liberta-me!
LIBERTA-ME!
…
…
…
Silêncio…
O instinto vai-se…
A culpa assume forma. Uma forma não muito agradável. Rapidamente desaparece. Assim como a estranheza aceitadora.
A vida continua. Será apenas mais um. Um de muitos…
Tenho de trabalhar…
Sim, trabalhar.
…
Mas ela continua lá…
Mas ela continua lá…
É cansativo, no mínimo. Quando se tenta empenhar o nosso esforço sobre a oficina universal e sentimos o peso do nosso passado e de outros pensamentos. Haha! O trabalho fica comprometido. Rio-me pela insignificância do que acabo de me aperceber. Uma resistência inútil. Uma tentativa fugaz de alcançar aquilo que denominamos “civil” ou “humano”. É triste, no fundo. Como tal, levanto-me da secretária e tomo para outros lados.
Mas ela continua lá…
Preparo o meu jantar e tento alimentar a básica necessidade humana de “comer”. Pena que a mente se desvie para outros lados. Um “comer” diferente seria mais apropriado… Desde… Desde…
Não, não irei pensar nisso. Será decerto a minha ruína, como a de muitos outros antes de mim. Quando se lembram do calor, da sensação inigualável do toque de carmesim e da respiração ofegante. Da prenda divina a que todos os seres vivos tiveram acesso. Do trocar de almas e da mistura de sonhos, pesadelos e compreensão da nossa barbárie. Uma selvageria prima de tempos outros. Tempos infinitos desde o processo da criação. Que foi? Acham-me louco por desejar assim tanto isso? Será que as pessoas se esqueceram do básico que as coisas são? Será que…
- Ainda aqui…
Não! Deixa-me! Eu não sou isso. Recuso-me a ser escravo desse pequeno sonho, inegável desejo.
Retiro-me frustrado da cozinha. Talvez música? Sim, música. Acalma-me. Chopin? Ou estarei mais para Bach hoje? Talvez Debussy.
Dirijo-me para o piano e toco. Toco… Viajo por entre o marfim e o ébano. Na procura de uma qualquer estrada musical, para além da escuridão do que me persegue. As notas passam por mim, acompanhadas por um mundo neutro e infinito. Um mundo que não é necessariamente a cores, mas também não se encontra desprovido delas. Vejo infâncias…
Observo passados e aberturas que dão entrada para tantas possibilidades…
É tão giro como a primeira música é sempre uma das mais especiais. Arabesque nº1.
- Lamento, mas contínuo cá. Ainda a tentar resistir-me?
Silêncio! Ahhhh! Como eu desprezo a obsessão que me fazes sentir. A forma como eu poderia pôr um fim a tudo…
Bato no piano, formando um acorde desconhecido pela mente de uma qualquer pessoa sã. O acorde é gritante. A mão procura… Procura algo… A mente ajuda…
- Porque te negas?
Não… Eu não posso. Será nojento. Apenas me vai amarrar mais.
- Shiu… Relaxa!
Ordem suprema do abrir da fenda cerebral! Toda a razão perdida. Apenas instinto. Instinto básico. Procura de sensações. Procura do gosto e de memórias. Memórias ativam.
O suor… O odor. Aquele regresso ao mais puro dos edens que nos foram concedidos. Sim! É isso. O maravilhoso toque que apenas… apenas…
- Eu posso permitir…
Sim! Tu!
- Rejeitas?
Não! Nunca! Não posso. Preciso de mais e mais e mais… Uma e outra vez. As energias não se esgotam. Rejeitar? Nunca!
- Então… Submete-te!
Agora e para todo o sempre! Liberta-me! Liberta-me!
LIBERTA-ME!
…
…
…
Silêncio…
O instinto vai-se…
A culpa assume forma. Uma forma não muito agradável. Rapidamente desaparece. Assim como a estranheza aceitadora.
A vida continua. Será apenas mais um. Um de muitos…
Tenho de trabalhar…
Sim, trabalhar.
…
Mas ela continua lá…


