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2 de julho de 2014

Entre uma multidão que carrega a sua mala preta
Eu levo a minha mala branca
Os olhares cegos são intensos
Mas o orgulho supera a debilidade

Sou uma entre vinte e uma centenas
E não pertenço a tal holonomia
Sou uma entre vinte e uma centenas
Mas a solidão não me domina
Porque solidão não é estar só
Mas sim sentir-se só entre muitos

Esta gente rege-se por uma mente vazia
Este povo não se apercebe da sua monotonia
Produz-se, desenvolve-se
Mas nada se cria.

Será este negro a decadência da criação?
Será esta moda o estagnar da inovação?

Levo a minha mala branca
E levo-a até à meta
Criei, desenvolvi e produzi.
Criei.

Sou uma entre vinte e uma centenas
E nenhuma mão acusadora me derruba
Sou eu
E uma mala preta não me amedronta

27 de junho de 2014

Beatitude

Inspirou profundamente o ar cinzento
do fumo que gradualmente lhe aniquilava
os pulmões.
Olhou em frente e viu a cidade outrora esquecida.
A cidade da sua infância erguia-se à sua volta,
como em tempos o fizera,
porém, desta vez sentiu-a bem-vinda,
não a criticou, não a caluniou.
Sentou-se num banco
rodeado de árvores e beatas.
Inalou novamente o fumo
que lhe tranquilizava as iras.
O aglomerado de moléculas tóxicas
soltou-se da sua boca e desvaneceu-se no ar.

20 de junho de 2014

Poema curto

E, uma vez mais, as palavras perdem-se
Entre o que é e o que não volta a ser.
Prendem-se na garganta, rasgam desejos,
Prendem-se a sonhos outrora degolados,
Rompem barreiras por Cronos delineadas
E acabam perdendo-se em razões esfumadas.

16 de junho de 2014

Esta noite é só mais uma
Noite preguiçosa, vulgar.. inútil!
Inspiro espinhos de uma rosa negra e
Expiro um ar amargo que por vezes me sufoca

Inspiro-me na escuridão
De onde virão tais pensamentos?
O desafio ataca-me e desperta-me a vontade
Sinto-me incapaz de usar um mero lápis

A minha mente flui e foge
Para um mundo que não me pertence
Ou será este o meu mundo?
Minha mente cria imagens, obras e composições
E eu...eu não crio nada
Sinto-me incapaz de usar um mero lápis.

Adapta-te...ouço gritos de alguém a torcer por mim
A acreditar em mim...alguém
Mais uma rasteira da minha mente

Preguiçosa, vulgar.. inútil!

Adormeço no meu descanso...
esta noite é só mais uma
Em vão.

2 de junho de 2014

Será errado o embaraço que sinto
Por de ti fazer parte?
Sentir-me deslocada por manifesto,
Refém de lusa democracia?

Terra outrora detentora do mar
Agora ínfima, confinada pela tua costa.

Possuidora de um passado que luza
E, agora, de um presente negro
Dominado por confiança limitada.
O progresso é longínquo, 
O teu futuro opaco.

Enches de mentiras
Um buraco do tamanho de um povo
Povo que testemunha a tua derrota
Povo que chora de desalento.

Que cruzadas cometeste
Em prol da tua regressão?

De um império se fez uma colónia
Da história se fez uma fábula
Da imponência se fez o insignificante.

Gerações de glória desfeitas
Por mãos que assolaram a liberdade
Com um espírito tacanho.
A dignidade despovoa-te.

Adormeceste num sono profundo,
Criador de pesadelos
Que te assombram sem escrúpulos.

Acorda, Lusitânia!
Será errado acreditar?


21 de maio de 2014

Fechar os olhos

Fechar os olhos foi o primeiro passo,
Para esquecer a artista que observava.
Ao mesmo tempo fechar os olhos
Foi o início do retrato a que servi de modelo.

Este simples gesto levou-me a
Passear  com o irlandês moderno
Por um local, onde só existe
o cantar da cascata e o ruído
da nossa respiração. E o mundo?

O mundo, esse, deixou de existir,
As pessoas tornaram-se pó.
E tudo isto aconteceu quando
Recordei que para me acalmar
Só basta fechar os olhos,
Respeitar o silêncio que
Oferece sabedoria e paz.

14 de maio de 2014

Sol

Saí à rua e deparei-me com um belo sol,
Daqueles que nos dá um calor confortável,
Sem termos necessidade de tirar a roupa.
Aquele sol ideal para ir para o jardim ler,
Ou para fazer uma boa caminhada.

Saí à rua, vi o sol e lembrei-me de ti.
Revi os fotões reflectidos pelo teu cabelo,
Quando num dia como este fugíamos
Em direcção ao nada que para nós era tudo.
Lembrei-me de ti e senti um arrepio.

Saí à rua, lembrei-me de ti e o sol ocultou-se.
O calor confortável deixou-me. O vento veio.
Trouxe frio. Daquele que se entranha na pele.
Daquele que assusta pessoas e tira vidas.
Pareceu-me sentir o teu toque.

Saí à rua, o sol escondeu-se e arrepiei-me.
Vi-te pôr o teu casaco sobre os meus ombros,
Mas tu não estavas lá. Foi só uma visão...
Recordações como esta são veneno.
Fazem os mais lúcidos perder a cabeça.

28 de abril de 2014

Larga as palavras

Larga as palavras,
Diz-lhe que não podes mais deter o tempo.
Tudo mudou, tudo evoluiu, tudo está diferente.
É a lei da natureza conhecida pelo Homem,
O amadurecimento das coisas,
O passar do tempo em que me arrasto eu e tu.

Não me peças indiferença, mais distância e mais dias,
Não me peças para te dar mais do que já roubaste.
Não! Não vou levar-te comigo naquele arrastar de horas,
Naquele arrastar de momentos que desvanecem
Quando vamos de encontro ao nosso cosmos.

Quero revirar o tempo e alterar os meus erros,
Quero mudar o mundo e devolver-te o que foi teu,
Quero recuperar o que já perdido não pode voltar.
Não posso levar-te comigo sem estares comigo,
Não quero acompanhar-te sem a tua companhia,
Não vou preocupar-me em mudar o que é fixo,
Não mais. É exaustivo nadar contra a corrente!

14 de abril de 2014

Dar Amor

Quem dorme para a vida
Vive para a morte.
E quem sonha acordado,
Se morrer, tem pouca sorte.

Felizes aqueles que vivem
Para viver mais e mais.
E vivem dando espaço no seu cais
Para qualquer barco,
Naufragado ou não, que vem.

Infelizes aqueles que,
No meio de um arco-íris de neve estrelada
Se sentem sós e, a quem nós, os felizes,
Tentam levar de novo para a estrada.

Felizes aqueles que lêem e escrevem
E que dão a ler e a escrever
Aos infelizes que nada têm
ou não querem ter.

Se Deus existe,
Então escreve o seu amor nos arco-íris.
@@@

9 de abril de 2014

A ti, Coimbra

A ti, Coimbra, que me acolheste em teu encanto
Abençoo o dia que despertou em mim este espanto
Presenciaste os meus romances, contigo aprendi a amar
Chegar a ti mostrou-me que ainda é possível sonhar
Acompanha-me nesta idade de novas descobertas
Dá-me sabedoria para um dia tomar as decisões certas

Coimbra, quem te fez tão perfeita e tão cheia de vida?
Tudo em ti corrompe nossa força, na hora da despedida.
Só quem te vive pode conhecer a dor de te abandonar.
Como consegues ter tanto com que nos maravilhar?

Coimbra, temo o dia em que te deixarei

E, repara, que ainda só agora cheguei.

31 de março de 2014

Isto...

Que é isto que me impregna a alma,
Que feitiço teu fez em mim este encanto,
Que loucura a minha em pensar-te diferente.
Levar-te até à lua e deixar-te a sonhar…

Nunca meu ser deixei voar tanto,
Pois nunca encontrei o perfume certo
No qual pudesse inspirar meus sonhos.
Nunca meu afecto pareceu tão correcto
E mesmo assim achei-o tão errado.

Teu doce e viril aroma impregna meu espírito,
Enquanto me dou conta que é hora de partir.

19 de março de 2014

Espaços de uma folha

Não é que eu queira ser,
De alma e coração, poeta
Colar nesta folha palavras de amor,
Imensos sentimentos…
Saídos da ponta de uma caneta.
Não é que eu queira gravar numa folha
Tantas palavras que te tenho a dizer
Mas é defeito meu. Elas do papel não saem.

Não é que queira, talvez,
esconder o que sinto neste pedaço de folha
e deixar-te de parte de tudo
o que na realidade te integra.

Não é que eu queira, nunca,
Em momento algum
Acreditar que o que sinto
Nesta folha caberia

O que realmente quero
É deixar gravado na folha do universo
O que do fundo do meu coração sai…
Essa folha sim contém o espaço necessário

Jéssica Fonseca

14 de março de 2014

Ponte Salazar



O 25 de Abril trouxe-nos liberdade.
E tu, ó ponte, que esse nome deténs,
Desse nome nada tens,
Pois à que pagar para chegar à grande cidade.

Devias chamar-te o teu nome primitivo:
Ponte Salazar;
Pois, para te atravessar,
É preciso pagar um significativo
Da não-liberdade,
Tal como no tempo do ditador.

É esta a tua liberdade, Portugal?
@@@

7 de março de 2014

Mundano

Desculpa mãe,
Cada suspiro intensifica a culpa minha,
Que por desvairado acto levou aos vícios.
Desculpa pai,
Por não poder seguir em vida teus distintos passos
Que, ontem, fizeram de ti a figura que hoje admiro.

Meu corpo é fraco e meu espírito frágil,
Deixa-se levar pelos pequenos prazeres.
Meu intelecto percebe os males dos meus actos
Mas minha alma não ouve o que este lhe diz.

Tem prazer em comer chocolate
Quando o corpo se sente grande,
Tem gosto em beber álcool
Quando o cérebro já está embriagado,
Tem desejo de um cigarro
Quando os pulmões se sentem débeis.

Eis que assim me desfalece o corpo,
Tão delicado desde nascença e danificado
Pelos males mundanos que meu espírito viciam,
Oferecendo prazer instantâneo.