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25 de junho de 2014

Cabelo

Tenho o cabelo sujo. Há semanas que carrego este cabelo sujo na minha cabeça. Causa-me comichões, deixa-me irrequieta. Quero tocar-lhe, mexer-lhe, arrancar pequenos fios e saborear o prazer que as ondinhas de dor deixadas na cicatriz da raiz me causam. Quero arrancá-lo, puxá-lo, arrancá-lo todo. Deixa-me irritada. Sai pelo cabelo o fracasso da minha mente. Desfragmenta-se nas pontas duplas.

Nas pernas, os pêlos do inverno abrem alas para os ventos do verão por vir. Movem-se e causam-me a sensação de que um pano de seda corre pelas minhas pernas. Abro as janelas e as portas da casa e coloco-me no ponto onde as partículas se chocam, para sentir melhor a seda que as minhas pernas me dão mas que a carteira não me permite [obter]. Desfruto o momento e esqueço o cabelo por breves instantes.

As minhas lágrimas sempre sofreram pelos fracassos da minha mente. Mais que os meus cabelos, as lágrimas. Anseiam pelo momento em que poderão escorregar pelos meus olhos abaixo. Algumas fogem-me dos olhos nos dias solarengos. Não deve haver espaço para todas, suspeito. Deixo-as sair nos dias de chuva, para que se confundam e julguem que o chão é a sua direção e o céu a sua origem. Mas os meus olhos vermelhos não mentem.

16 de maio de 2014

Bandido

Acorda todos os dias com a Nona. Permanece deitado na cama e tira da mesa de cabeceira um dos jornais no amontoado que lá tem. Lê uma data de páginas e volta a pousá-lo em cima do monte. Olha fixamente para o teto, enquanto ganha coragem para remover as mantas e lançar-se ao ambiente frio do quarto. Quando se cansa do coro, a força fingida da mente retira-o das mantas. Calça as pantufas brancas. Sai do quarto para o quarto de banho, onde escova os dentes minuciosamente, para depois contemplar a sua brancura.

Em cima da mesa da cozinha tem outro monte de jornais. Dirigi-se para lá, tira o café do armário e põe-no no filtro. Muito café e pouca água. Deseja-o amargo, porque café só é café se for amargo. Come sempre duas torradas, barradas com doce de morango, para acompanhar o café. Senta-se à mesa e degusta a refeição. Olha a montanha de jornais, que apelidou de Bandido, de relance. O Bandido do quarto é um acumular de notícias da atualidade. O Bandido da sala é um acumular de tudo que difere de notícia. Guarda jornais nos Bandidos para um dia mais tarde os ler. Os da atualidade não interessam em que altura são lidos. O tempo, na sua mente, não é linear. Como um relógio, volta várias vezes à mesma coordenada. As notícias de ontem podem, então, ser as notícias de hoje.

Hoje é sábado. Não tem de ir ao escritório, mas acorda mais cedo. Acaba de ler uma crónica de um jornal do Bandido da sala quando o relógio começa a gritar sons agudos. Está na hora de sair. Calça as botas e veste um casaco. Pega na caixa com o maço de cigarros e nas chaves, põe-nos no bolso. Sai para a rua com a roupa de dormir. «Não interessa, o Sol ainda não acordou!». Ao fechar a porta do prédio é confrontado com uma chuva que não é chuva, mas sim gelo, e gelo que não é neve. Chove ferozmente. Se voltar para trás agora, é pouco provável que tenha os jornais do dia de hoje. «Que se lixe!». Desce a rua. A rua onde mora é bastante inclinada. Se alguma vez tiver de fugir, a sua fisionomia atraiçoá-lo-ia, a gordura que tem na barriga é provável que também a tenha nas veias. Continua a descer. Para e encosta-se a um poste perto da papelaria da sua rua. Fumaria quantos cigarros fossem necessários até chegar a carrinha que entrega os jornais, mas está a chover. Nem a chama nem o cigarro acenderiam.

Uma carrinha vermelha aproxima-se, para em frente à papelaria. Dela sai um homem. Emília, a rapariguinha que trabalha na papelaria, abre a porta, o homem aproxima-se da porta e Emília inicia uma conversa inaudível com o homem. Aproxima-se da parte traseira carrinha, tira um dos conjuntos de jornais e põe debaixo do casaco. Olha para Emília. Ela corresponde ao olhar, como se fosse cúmplice platónica dele. Atravessa para o outro lado da rua, onde está o poste. Sobe a rua. A chuva cai, mas já não é gelo, nem gelo que não é neve, é água, apenas. Enquanto sobe, sente no cansaço a gordura das veias «Eu deveria fazer algum desporto.». Chega finalmente ao seu prédio. Subiria as escadas, mas os sábados de manhã são para o elevador. Em casa, põe os jornais em cima dos Bandidos, tira um jornal de edições passadas do Bandido da sala para ler na banheira, enquanto ouve a missa de Beethoven, para que no dia do juízo final o Senhor se lembre que os pecados eram seguidos por composições divinas.

5 de maio de 2014

Vergonha

Os sonhos, de manhã, são cantos de sereias. Iludem-me, seduzem-me para a sua direção e incitam-me a renegar a realidade. Mas não são sereias dos mares, são sereias num quarto escuro separado da claridade da realidade por uma porta azul. Chamam-me para o desconhecido, chamam-me para o atraso aos meus compromissos. Chamam-me para mais horas de sono e sonhos. As sereias são então partes do meu corpo, do meu corpo cansado. O meu corpo cansado que anseia por algum tempo de repouso. Mas esse mesmo corpo atraiçoa-me quando me rendo aos cânticos.

Sinto um fino fio de fluído a percorrer entre a pele das minhas pernas. Lentamente, os movimentos dos meus músculos vão se pronunciando, mostrando-se indiscretos e descoordenados. Ora dói-me o útero, ora doem-me os músculos da vagina. É um conjunto de movimentos primitivos e incertos.

Se esta fosse uma manhã da minha adolescência, levantar-me-ia o mais depressa possível da cama, para colocar, entre as minhas pernas, aquilo que é um dos vários atentados do Homem para esconder a sua vergonha. Colocaria um penso higiénico para me diferenciar das outras fêmeas do reino animal. Para lhes mostrar que a diferença entre o animal racional e o animal irracional reside apenas no facto de o racional saber esconder muito bem aquilo que o aproxima dos irracionais. Dizem-me que o que nos difere deles reside na nossa superioridade como a espécie escolhida pelo criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, que há já muitos milénios promete descer à Terra e fazer justiça para todos os homens bons, embora eu só o tenha visto nas maçãs divinas que como com regularidade preocupante. Mas aí, tanto a aparição como a justiça terrena são feitas só para mim. Pergunto-me se não serei eu a eleita. Pergunto-me se todas aquelas maçãs Fuji não são o alimento feito pelo Senhor, especialmente para mim, a eleita.

As gotas de sangue menstrual continuam a percorrerem a minha vagina. Continuo deitada, com uma almofada debaixo das minhas ancas, porque é sábado e interessa-me mais o conforto de uma cama que a vergonha transmitida por ancestrais.

21 de abril de 2014

Sujidade - Parte I

Dominado por um sono indesejado, Rodrigo Amarante chega até mim como um conjunto de sons eróticos. A melodia estimula o meu cérebro. Há tanto para limpar! Há tanto tempo que há tanto para limpar. Quando reparei na sujeira que havia feito, decidi que a melhor solução seria sentar-me e relaxar durante algum tempo. Atirei-me para o sofá, tirei o leitor de CD da mala e mergulhei em Rodrigo Amarante. Fechei os olhos, não suportava olhar para o teto também imundo. Se soubesse, teria calçado sapatos de borracha. Teria vestido uma roupa mais descartável e não este par de calças novas. Mas que grandecíssima merda!

Tudo se tornou azucrinante. Rodrigo Amarante chega até mim como um fardo. Quero desligar, mas já sujei as minhas mãos e agora receio sujar o leitor de CD. Que alguma coisa saia limpa desta sala! Tiro os auriculares dos ouvidos, com cuidado, para não ver os fios brancos manchados de vermelho.

Ela encontra-se deitada no quarto. Deitou-se antes dele chegar, como se o que fosse acontecer a seguir nada tivesse a ver com ela. Oiço a sua respiração da sala. Está diferente. Normalmente, a sua respiração arrasta as ondas do mar e enche a casa com o som fresco. Está anelante, como se a culpa que penetra nos seus sonhos saísse pesadamente através da respiração.

Reencontrei-a numa tarde primaveril, há alguns meses atrás. O Parque da Cidade encontrava-se repleto de flores. Deitado na relva, este era um cenário divino de se ver. Mas a relva não se encontrava preparada para roupa primaveril, penetrava no tecido leve da camisa que tinha vestido e deixava-me no mais puro desconforto. Numa das várias tentativas de me pôr confortável, avistei-a. Passados quase dois mil anos, a sua alma continuava bela e leve. Aproximava-se de mim e transportava toda aquela aura marinha. Trazia um vestido negro de algodão cujas pontas esvoaçavam a cada movimento seu. Deitou-se ao meu lado. Não disse nada durante muito tempo. Uma joaninha pousou no seu peito, um ponto vermelho na imensidão do negro vestido. Quanto o Sol já se encontrava no meio do céu e o ar estava cada vez mais pesado, levantou-se, toda a sua figura tapou a luz e a sombra do seu corpo invadiu o meu. Nesse momento, agradou-me a ideia de ter parte da sua essência sobre mim. Disse-me, com a sua voz suave e doce, que tínhamos um assunto pendente a tratar.

Junto ao sofá, no chão, o metal frio do arco rouba-me o calor das mãos. Há alguns minutos atrás, quando toda a minha a mão envolvia parte do metal do arco, parecia que todo o arco tinha como missão sugar todo o calor do meu corpo. Ou talvez tenha sido uma ilusão por me ter concentrado inteiramente na tarefa de apontar ao alvo. Comprei apenas uma flecha, na condição de que se falhasse ele teria a sua liberdade de volta. Com apenas uma flecha, a tarefa teria de ser infalivelmente executada. Falhar significaria passar outros dois mil anos de angústias. Desta vez é mais fácil. Não vim de um ventre intacto, não tenho uma legião de almas sugadoras atrás de mim. Desta vez sou só eu e ela.

O cadáver está no canto da sala, ainda sentado na cadeira onde repousou para aceitar o seu destino. Julguei que não me reconheceria quando o trouxe dos mortos. Olhou-me nos olhos e reconheceu os olhos que outrora se dirigiram para ele com carinho. Tinha uma expressão melancólica, tinha o olhar carregado de tristeza. Todo aquele espetáculo de melancolia era contagiante. Repudiava-o ainda mais. Se há coisa que detesto são alminhas que pedem piedade com os olhos, não suporto olhos carregados de tristeza súbita. Disse-lhe que daí a quarenta dias iria atirar uma flecha no espaço entre as suas sobrancelhas. Se falhasse, estaria em liberdade e o nosso assunto pendente estaria para sempre resolvido.

28 de março de 2014

Esqueleto com cigarro aceso

Ele come gelados no inverno porque a vida é demasiado curta para moldarmos os nossos gostos segundo os gostos do planeta.

- Quero ver o mundo a arder!

Diz isso enquanto esbate sobre a tela camadas grossas de tinta castanha.

- O que pintas?

- Um esqueleto.

- Com esse pincel? Não seria melhor um mais fino?

- Não sou Caravaggio!

Sentado numa cadeira de madeira, de frente para a janela, para vislumbrar o negro da noite, pincela ferozmente. Pincela na tela e na roupa, na roupa que outrora fora imaculadamente branca. Usa sempre roupas brancas, de linho, para pintar.

- Pinto de branco, em noites negras, para misturar o luto humano com o luto do céu.

- Mas o branco não é a cor do luto.

- E quem o diz? Os padres reprimidos e as noivas virgens?

Tem um gira-discos Dallas Classic, especialmente comprado para o único disco de vinil que tem. Está no chão, entre a secretária e o quadro de uma mulher de vestido vermelho esfarrapado que passeia descalça pelas ruas de Paris. Toca Gato Barbieri, sempre Gato Barbieri. Toca desde o primeiro dia em que entrei neste quarto. Toca até o som penetrar no cérebro e criar pedaços finos de vidro que vão cortando o tecido e provocando dores de cabeça tortuosas. Ele parece ser imune a toda esta tortura.

Levanto-me da cama e caminho a seu encontro.

- O que pintas?

- Um cigarro.

- No esqueleto?

- Sim.

- Faltam-lhe pulmões. Como é que fuma sem pulmões?

- Como é que uma sombra fala nos livros de Murakami e tu não te interrogas?

- Mas isso é literatura.

- E isto é pintura!

As paredes negras do quarto contrastam com os quadros luminosos. Todos os quadros que pintou até então estão preenchidos por uma palete de cores leves. Todos, excepto este que ele está a pintar agora. Talvez o fundo negro sirva para contrastar com o esqueleto.

- Não achas que o cigarro merecia uma chama mais acentuada? E essas costelas não estão um pouco irreais, assim afastadas do resto?

- Talvez.

Pinta a chama quase impercetível do cigarro. Pousa os pincéis. Levanta-se, despe a camisa, dobra-a cuidadosamente e coloca-a em cima da cama. Desaperta o cinto das calças de linho, tira-as, dobra-as e coloca-as em cima da camisa. Dirige-se para a janela, senta-se no parapeito. Com o negro do céu, o verde que colora os seus olhos acentua-se.

- O que queres fazer?

- Quero ver o mundo a arder.

Atira-se para fora da janela. Corro para a janela, vejo-o cair e grito:

- Olha que desta vez não será só a orelha, magoarás o corpo todo!

24 de fevereiro de 2014

A bicicleta

Fui atropelada pela primeira vez quando tinha menos de cinco anos. Assumo que tivesse menos de cinco anos porque foi no Huambo. Saí do Huambo quando tinha cerca de cinco anos porque depois de um ano em Luanda entrei pela primeira vez no primeiro ano da escola elementar. Deduzo, então, que a data de nascimento da minha curiosidade eterna tenha sido nesse dia, ou antes, talvez a minha mãe me saiba dizer com maior precisão. Mas nunca faço perguntas complicadas à minha mãe. Provavelmente, ao nascer, a minha mãe fez um pacto comigo: que me amaria incondicionalmente em troca de paz de espírito e ausência de perguntas complicadas de responder. Perguntas como o relato detalhado da morte do meu pai. Ainda ninguém me soube explicar como e quando ele morreu. Enquanto crescia fui ouvindo as mais variadas estórias. Numa delas culpam uma das várias minas espalhadas pelo Huambo. Noutra culpam um padrinho ou tio de um tio meu – ignoro sempre os graus de parentescos na minha família, é uma família grande.

Estava a caminho da casa dos meus avôs paternos (ou maternos? Nunca sei.). Estava sozinha, porque é assim que o Huambo funciona. Ou, pelo menos, era assim que S. Pedro funcionava. Em S. Pedro as crianças tinham liberdade infinita nas ruas porque todos tomavam conta de todos. Em plena guerra civil, eu tinha mais liberdade nas ruas do Huambo do que na paz das ruas de Luanda. A caminho da casa dos meus avôs vi um homem montado numa bicicleta. A minha memória falha em dizer-me se aquela era a primeira bicicleta que eu via em S. Pedro. Se fosse a primeira, justificaria o facto de me ter lançado para o meio da estrada, movida pela curiosidade do que aconteceria a seguir. Lembro-me de ter pensado o que irá acontecer se eu me puser no meio da estrada? Os momentos seguintes foram totalmente apagados da minha memória. Salto da estrada para a delegacia, onde um dos meus muitos tios avôs trabalhava como policial. Eu disse-lhe que eu estava no passeio e ele saltou a estrada para o passeio, eu comecei a fugir e ele foi atrás de mim com a bicicleta. Disse essas mentiras com todos os dentinhos que uma criança endiabrada tem. Depois disso lembro-me apenas de que brincava com pintainhos - fascinava-me a sua penugem amarela -, que o meu avô paterno faleceu e tive de usar uma pulseira branca durante semanas e prometer que não iria chorar, e que um dia tivemos de abandonar a nossa casa, a família do Huambo e partir para Luanda para fugir de uma guerra que eu só via na televisão por ser muito criança e ter muita liberdade para sequer notar o perigo.

Voltei a ver uma bicicleta em Luanda, algures antes dos dez anos.