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25 de junho de 2014

Cabelo

Tenho o cabelo sujo. Há semanas que carrego este cabelo sujo na minha cabeça. Causa-me comichões, deixa-me irrequieta. Quero tocar-lhe, mexer-lhe, arrancar pequenos fios e saborear o prazer que as ondinhas de dor deixadas na cicatriz da raiz me causam. Quero arrancá-lo, puxá-lo, arrancá-lo todo. Deixa-me irritada. Sai pelo cabelo o fracasso da minha mente. Desfragmenta-se nas pontas duplas.

Nas pernas, os pêlos do inverno abrem alas para os ventos do verão por vir. Movem-se e causam-me a sensação de que um pano de seda corre pelas minhas pernas. Abro as janelas e as portas da casa e coloco-me no ponto onde as partículas se chocam, para sentir melhor a seda que as minhas pernas me dão mas que a carteira não me permite [obter]. Desfruto o momento e esqueço o cabelo por breves instantes.

As minhas lágrimas sempre sofreram pelos fracassos da minha mente. Mais que os meus cabelos, as lágrimas. Anseiam pelo momento em que poderão escorregar pelos meus olhos abaixo. Algumas fogem-me dos olhos nos dias solarengos. Não deve haver espaço para todas, suspeito. Deixo-as sair nos dias de chuva, para que se confundam e julguem que o chão é a sua direção e o céu a sua origem. Mas os meus olhos vermelhos não mentem.

11 de junho de 2014

Prosa

Abri os olhos e eram quase quatro da manhã. Sentia-me exausta e ainda não tinha conseguido adormecer, o sono esquecera-se de mim por mais uma noite. Fitei o tecto. Por instantes quebrei as leis da física e rompi barreiras espácio-temporais. Quando voltei a mim percebi que estava a sonhar acordada. Talvez por não conseguir dormir, esta foi a forma que o meu corpo encontrou de fugir à situação desconfortável em que estava, obtendo assim um pouco de descanso ligeiro.

Aflige-me o mundo, ouvi alguém dizer. Olhei em volta. Não havia mais ninguém no quarto. Lá estava eu a fugir, outra vez, para a lua. Alguém me dissera, realmente, aquilo. Quem foi? Não me recordava. Quando foi isso? Não sabia. Que miséria ser jovem com falta de memória! Pensando melhor, talvez fosse melhor assim. Como diz o velho ditado: o que os olhos não vêem, o coração não sente. É preferível não recordar que depararmo-nos diariamente com algo que nos aflige excessivamente. Ou não? Será melhor enfrentar uma dura realidade todos os dias, lutar contra ela até gastarmos a nossa última molécula de glicose? Ignorância ou mal-estar? Boa questão! Um personagem de romance, nobre de espírito, escolheria a segunda opção. Quase que o conseguia ver, talvez um cavaleiro, para dar asas a este cliché, a empunhar a sua espada, montado no seu cavalo, vestindo um olhar corajoso… Contudo, e tendo em conta que não tenho a minha espécie em grande consideração, deduzi que todas as pessoas à face da Terra optariam inconscientemente pela primeira. E porquê inconscientemente? Porque muitas delas, se soubessem da minha convicção, procurariam modificá-la. Tentativas falhadas de vangloriar a espécie humana.

Quem levou outras espécies à extinção sem necessidade? Quem conspurcou o planeta com tóxicos e lixo não-degradável? Quem se acha senhor do cosmos e tenta manipular tudo, sem ponderar as consequências? O Homem. O Homem. O Homem. Vivemos tão racionalmente isolados nas nossas cidades e vilas, tão emocionalmente ocupados com procuras de respostas e momentos que nem sabemos serem possíveis. Critico-me a mim. Eu que tenho preguiça de reciclar, que deixo pontas de cigarro no passeio, que perco a cabeça com nada de importante e que deixo passar tantas oportunidades de melhorar a realidade de alguém, desta ou doutra espécie. Olhei novamente o relógio. Cinco em ponto. Voltei a fechar os olhos. Com sorte a minha cabeça barulhenta só voltaria a revelar-se na manhã seguinte, depois de umas horas de sono há muito esperadas.

9 de junho de 2014

História de um quase afogamento

Tinha as roupas encharcadas. Tanto eu como ele. Aliás, ensopadas seria o termo correto. A chuva teimava em cair e as ondas rebentavam violentamente contra os rochedos e sobre a areia, cujos grãos mais finos e leves esvoaçavam ao sabor do agreste vento inverno-típico.

Tinha conseguido tirá-lo da água, embora agora estivesse num estado de inconsciência. Sabia que não tinha partido porque ainda ouvia a sua respiração. Fraca, ténue e prestes a silenciar se a água que invadia os seus pulmões não fosse expelida rapidamente.

No entanto, estava exausta. O esforço de lutar contra a maré tinha sido demasiado. O peso do seu corpo, agravado às pesadas vestes e à consciência pesada tinham exigido de mim uma força que nem eu sabia que detinha.

Jazia agora na areia, de barriga para cima, enquanto, sem saber, esperava pela minha decisão: salvar ou partir, pegar ou largar, deixá-lo à vida ou entregá-lo à morte. Quantos antagonismos me trespassavam a mente! Think fast but choose wisely, sussurrava uma voz sumida dentro da minha cabeça.

Levantei-me da areia e sacudi as pequenas partículas que insistiam em permanecer coladas à roupa. Olhei em redor. Ninguém. Mentalmente, construí uma balança com os prós e contras. Um dos pratos começou a pender para o seu lado. É isso. Meteu-se nesta embrulhada, agora que saia dela. Já fiz mais do que devia.

Dirigi-me para as sapatilhas que tinha deixado à chegada da praia, mesmo ao lado do telemóvel com o qual me ligou a avisar-me da sua intenção de «se entregar às revoltas ondas do tenebroso oceano». Peguei nas sapatilhas e deixei o telemóvel, podia ser que lhe fizesse jeito de alguma forma. Avancei até à paragem de autocarro mais próxima, embora ainda ficasse a mais de trinta minutos a passo.

Ia já a meio caminho quando algo me perpassou como uma flecha afiada. Tu não és assim. Rodei cento e oitenta graus sobre a rota que tomava e corri. Esqueci o cansaço que as ondas me tinham causado e o frio que atravessava a fina camisola, entranhando-se nos poros da pele. Cheguei novamente à praia.

Ainda lá estava, sem dar mostras de se ter movido um milímetro. Aproximei-me e pus em prática o que tinha visto nas séries que envolviam salvamentos: massagens cardíacas ritmadas seguidas de ventilação direta na boca. Um, dois, três, quatro, ia repetindo baixinho. Ao fim de pouco menos de meia dúzia de tentativas, ouvi uma tosse fraca e indicativa de que, pelo menos, a água tinha sido expulsa. A respiração tornou-se mais audível, sinal de que era hora de ligar para o número de emergência médica.

Deixei o mesmo telemóvel que tinha sido usado tanto para o aviso de suicídio como para o pedido de ajuda para o anulamento deste junto à sua cabeça e apressei-me a sair dali. Já nada havia a fazer, agora era apenas uma questão de tempo até aparecerem os médicos e cuidar do seu paciente.

No meio de toda esta situação, apenas uma questão ressoava no meu pensamento. Como teria sobrevivido tanto tempo no frio oceano.

26 de maio de 2014

O Pastor

Tinha chegado a primavera. As flores espreitavam por todo o lado. As árvores exibiam o seu mais recente vestuário. Os animais acordavam da hibernação e começavam a busca por um parceiro sexual. Manuel adorava dias assim. Gostava de ouvir os rouxinóis, de caçar rãs, de observar os veados, de apanhar peixes... Tinha chegado a primavera e, como de costume, trouxera consigo vida.

Manuel vasculhou os campos em seu redor. Lá estava o seu rebanho junto à ribeira, lá estavam as suas ovelhas demasiado preocupadas em matar a sede para se darem conta de todo o esplendor que as rodeava. Biscaia corria por entre o feno como um louco,  até ver um grupo de pássaros no meio da plantação. Eram perdizes que desataram a voar, assustadas pelo desastrado do cão. Biscaia correu atrás delas até não as ver mais. Depois atirou-se para o rio e começou a nadar. Manuel morria de vontade de se juntar ao seu companheiro, mas a água estava ainda muito fria e deixá-lo-ia doente.

As ovelhas estavam agora deitadas junto ao muro de pedra, ao lado do rio. Biscaia tinha acabado de sacudir as gotas de água presas ao pelo. Enquanto se aproximava por entre as ovelhas, Manuel analisava cada movimento e cada característica sua. Era um belo espécime de cão de gado transmontano. Não admirava que tivesse derrotado três lobos que tinham tentado atacar o rebanho, durante o inverno. Contudo, a idade não perdoa e os pelos castanhos por cima do focinho já estavam a perder a cor. Manuel tremeu só de pensar que podia perder o seu amigo.

Como se pressentisse a preocupação do dono, Biscaia sentou-se ao seu lado, pousou a cabeça no colo e olhou-o. Aqueles grandes olhos escuros escondiam uma meiguice que só Manuel conhecia. Por instantes, Manuel desejou permanecer assim para sempre. Sentia um conforto interior por poder partilhar aqueles dias com o seu amigo. Era uma sensação de calor no peito, uma sensação de bem-estar. O simples prazer da companhia de um bicho num final de tarde primaveril. O sol insistia em esconder-se atrás das montanhas deixando o céu em chamas.

16 de maio de 2014

Bandido

Acorda todos os dias com a Nona. Permanece deitado na cama e tira da mesa de cabeceira um dos jornais no amontoado que lá tem. Lê uma data de páginas e volta a pousá-lo em cima do monte. Olha fixamente para o teto, enquanto ganha coragem para remover as mantas e lançar-se ao ambiente frio do quarto. Quando se cansa do coro, a força fingida da mente retira-o das mantas. Calça as pantufas brancas. Sai do quarto para o quarto de banho, onde escova os dentes minuciosamente, para depois contemplar a sua brancura.

Em cima da mesa da cozinha tem outro monte de jornais. Dirigi-se para lá, tira o café do armário e põe-no no filtro. Muito café e pouca água. Deseja-o amargo, porque café só é café se for amargo. Come sempre duas torradas, barradas com doce de morango, para acompanhar o café. Senta-se à mesa e degusta a refeição. Olha a montanha de jornais, que apelidou de Bandido, de relance. O Bandido do quarto é um acumular de notícias da atualidade. O Bandido da sala é um acumular de tudo que difere de notícia. Guarda jornais nos Bandidos para um dia mais tarde os ler. Os da atualidade não interessam em que altura são lidos. O tempo, na sua mente, não é linear. Como um relógio, volta várias vezes à mesma coordenada. As notícias de ontem podem, então, ser as notícias de hoje.

Hoje é sábado. Não tem de ir ao escritório, mas acorda mais cedo. Acaba de ler uma crónica de um jornal do Bandido da sala quando o relógio começa a gritar sons agudos. Está na hora de sair. Calça as botas e veste um casaco. Pega na caixa com o maço de cigarros e nas chaves, põe-nos no bolso. Sai para a rua com a roupa de dormir. «Não interessa, o Sol ainda não acordou!». Ao fechar a porta do prédio é confrontado com uma chuva que não é chuva, mas sim gelo, e gelo que não é neve. Chove ferozmente. Se voltar para trás agora, é pouco provável que tenha os jornais do dia de hoje. «Que se lixe!». Desce a rua. A rua onde mora é bastante inclinada. Se alguma vez tiver de fugir, a sua fisionomia atraiçoá-lo-ia, a gordura que tem na barriga é provável que também a tenha nas veias. Continua a descer. Para e encosta-se a um poste perto da papelaria da sua rua. Fumaria quantos cigarros fossem necessários até chegar a carrinha que entrega os jornais, mas está a chover. Nem a chama nem o cigarro acenderiam.

Uma carrinha vermelha aproxima-se, para em frente à papelaria. Dela sai um homem. Emília, a rapariguinha que trabalha na papelaria, abre a porta, o homem aproxima-se da porta e Emília inicia uma conversa inaudível com o homem. Aproxima-se da parte traseira carrinha, tira um dos conjuntos de jornais e põe debaixo do casaco. Olha para Emília. Ela corresponde ao olhar, como se fosse cúmplice platónica dele. Atravessa para o outro lado da rua, onde está o poste. Sobe a rua. A chuva cai, mas já não é gelo, nem gelo que não é neve, é água, apenas. Enquanto sobe, sente no cansaço a gordura das veias «Eu deveria fazer algum desporto.». Chega finalmente ao seu prédio. Subiria as escadas, mas os sábados de manhã são para o elevador. Em casa, põe os jornais em cima dos Bandidos, tira um jornal de edições passadas do Bandido da sala para ler na banheira, enquanto ouve a missa de Beethoven, para que no dia do juízo final o Senhor se lembre que os pecados eram seguidos por composições divinas.

9 de maio de 2014

Por favor, não me deixes parar de respirar

Está uma noite fria.

A varanda mais parecia um festival de tecidos, com todas aquelas roupas a esvoaçar por cima de mim, despenteando-me o cabelo que tinha sido criteriosamente lavado e esticado, há pouco mais de um par de horas.

Agora já não. Livrei-me de todas as vestes que ondeavam ao sabor do vento e permanecia agora sozinha naqueles dez metros quadrados rodeados por grades, por todos os lados exceto um. Grades que me dão um pouco abaixo da anca. Perfeitas para assentar os cotovelos e contemplar a fileira de edifícios tristes que estavam na rua à minha frente. Perfeitas para pincelar de cores alegres para contrastar. Perfeitas para trespassar de um só salto…

Mas não hoje, não nesta noite fria. Está demasiado agreste para pensar sequer em afastar-me do abrigo a que chamo casa. Só o facto de permanecer em pé numa varanda de um décimo primeiro andar já é um feito de notar. 

Sento-me no pequeno banco feito de madeira envernizada, o único mobiliário que resta aqui. Retirei os jarros de flores exuberantes, as decorações de parede a imitar animais felizes esvoaçando na primavera e até mesmo a pequena mesinha que servia de apoio para os meus livros.

Lá dentro reina o silêncio. Não se ouve vivalma. Partiu. Não deixou qualquer rasto para trás, empacotou artefactos dentro de caixas e roupa dentro de malas, provavelmente temendo uma perseguição da minha parte. Não tentaria, mas também não me importo que tudo se cinja, por fim, a um silêncio avassalador, insignificante.

Agora nada disso importa, porque algures no mundo há um teto a desabar com toda esta tempestade. Há alguém que, por muito longe que esteja desta tempestade, está a segurar a mão de outro alguém, assistindo ao seu último suspiro. “Por favor, não me deixes parar de respirar”. Pff, pedidos vãos e inexequíveis, facilmente levados e arrastados pelo vento.

O vento, esse que ainda não se rendeu e convidou a sua aliada chuva para vir brincar à apanhada. Competindo para ver quem corre mais. Do meu ponto de vista, um empate é algo plausível: as minhas roupas estão tanto molhadas quanto frias.

A fechadura da porta é rodada e faz o ruído característico de algo antigo e que precisa de ser oleado. Talvez seja este o sinal para voltar para dentro. Talvez tenha voltado em busca de um teto e de alguém para conversar. Ou talvez seja a minha mente, que continua a divagar, muito para além da realidade. Que esteja a criar matéria onde apenas há vazio. Não sei até que ponto confio no meu discernimento. Sei que temo o dia em que, eventualmente, deixe de sentir e de pensar; receio o dia em que tome consciência de que toda a minha vida não passa de um desígnio da minha imaginação e que, afinal, estou presa numa cama de um hospício, considerada louca porque vivo numa realidade paralela e inexistente.

Abro a janela e preparo-me para entrar em casa, refugiar-me do mau tempo, ir ao seu encontro e pedir-lhe ansiosamente que desta vez me agarre a mão e que, por favor, não me deixe parar de respirar.

5 de maio de 2014

Vergonha

Os sonhos, de manhã, são cantos de sereias. Iludem-me, seduzem-me para a sua direção e incitam-me a renegar a realidade. Mas não são sereias dos mares, são sereias num quarto escuro separado da claridade da realidade por uma porta azul. Chamam-me para o desconhecido, chamam-me para o atraso aos meus compromissos. Chamam-me para mais horas de sono e sonhos. As sereias são então partes do meu corpo, do meu corpo cansado. O meu corpo cansado que anseia por algum tempo de repouso. Mas esse mesmo corpo atraiçoa-me quando me rendo aos cânticos.

Sinto um fino fio de fluído a percorrer entre a pele das minhas pernas. Lentamente, os movimentos dos meus músculos vão se pronunciando, mostrando-se indiscretos e descoordenados. Ora dói-me o útero, ora doem-me os músculos da vagina. É um conjunto de movimentos primitivos e incertos.

Se esta fosse uma manhã da minha adolescência, levantar-me-ia o mais depressa possível da cama, para colocar, entre as minhas pernas, aquilo que é um dos vários atentados do Homem para esconder a sua vergonha. Colocaria um penso higiénico para me diferenciar das outras fêmeas do reino animal. Para lhes mostrar que a diferença entre o animal racional e o animal irracional reside apenas no facto de o racional saber esconder muito bem aquilo que o aproxima dos irracionais. Dizem-me que o que nos difere deles reside na nossa superioridade como a espécie escolhida pelo criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, que há já muitos milénios promete descer à Terra e fazer justiça para todos os homens bons, embora eu só o tenha visto nas maçãs divinas que como com regularidade preocupante. Mas aí, tanto a aparição como a justiça terrena são feitas só para mim. Pergunto-me se não serei eu a eleita. Pergunto-me se todas aquelas maçãs Fuji não são o alimento feito pelo Senhor, especialmente para mim, a eleita.

As gotas de sangue menstrual continuam a percorrerem a minha vagina. Continuo deitada, com uma almofada debaixo das minhas ancas, porque é sábado e interessa-me mais o conforto de uma cama que a vergonha transmitida por ancestrais.

30 de abril de 2014

Desfoque

A loucura que nos separa é um desfoque inicial.

Esta barulheira merdosa e cinzentona das sirenes a rebate, que se enrola e rebola pelo chão à pancada com a fumarada e o lixo do populacho, é um mero cabo ferrugento e desbotado de uma ponte em queda livre.

Não aguento mais esta sociedade louca e franzina, de olhos esbugalhados e dopados, de boca espumarenta e insaciável sempre à espera do pior de mim. Mas não to vou dar, juro...não to vou dar!

É uma bacia cheia de merda o mundo em que vivemos.

Enoja-me esta Bíblia de costumes e cortesias conspurcada, oleosa e relaxada, que se arrasta e me enerva ao ponto de me fazer chorar cada dia da minha vida.

São as putas que fogem e os cabrões que matam, nada fica no seu lugar!

É tudo tão louco, tão doentio e tão febril que prefiro viver cego e sentado. E bastar-me-á apenas um banco numa praia e o barulho das ondas a espancar o areal. Bastar-me-á apenas o cheiro de uma gaivota e o toque do tempo a passar.

Ficarei ali para sempre, sozinho, comigo mesmo!

E se alguém chegar, pego nos pés e parto sem enxergar um palmo do caminho, porque a loucura que nos separa é um desfoque inicial.

21 de abril de 2014

Sujidade - Parte I

Dominado por um sono indesejado, Rodrigo Amarante chega até mim como um conjunto de sons eróticos. A melodia estimula o meu cérebro. Há tanto para limpar! Há tanto tempo que há tanto para limpar. Quando reparei na sujeira que havia feito, decidi que a melhor solução seria sentar-me e relaxar durante algum tempo. Atirei-me para o sofá, tirei o leitor de CD da mala e mergulhei em Rodrigo Amarante. Fechei os olhos, não suportava olhar para o teto também imundo. Se soubesse, teria calçado sapatos de borracha. Teria vestido uma roupa mais descartável e não este par de calças novas. Mas que grandecíssima merda!

Tudo se tornou azucrinante. Rodrigo Amarante chega até mim como um fardo. Quero desligar, mas já sujei as minhas mãos e agora receio sujar o leitor de CD. Que alguma coisa saia limpa desta sala! Tiro os auriculares dos ouvidos, com cuidado, para não ver os fios brancos manchados de vermelho.

Ela encontra-se deitada no quarto. Deitou-se antes dele chegar, como se o que fosse acontecer a seguir nada tivesse a ver com ela. Oiço a sua respiração da sala. Está diferente. Normalmente, a sua respiração arrasta as ondas do mar e enche a casa com o som fresco. Está anelante, como se a culpa que penetra nos seus sonhos saísse pesadamente através da respiração.

Reencontrei-a numa tarde primaveril, há alguns meses atrás. O Parque da Cidade encontrava-se repleto de flores. Deitado na relva, este era um cenário divino de se ver. Mas a relva não se encontrava preparada para roupa primaveril, penetrava no tecido leve da camisa que tinha vestido e deixava-me no mais puro desconforto. Numa das várias tentativas de me pôr confortável, avistei-a. Passados quase dois mil anos, a sua alma continuava bela e leve. Aproximava-se de mim e transportava toda aquela aura marinha. Trazia um vestido negro de algodão cujas pontas esvoaçavam a cada movimento seu. Deitou-se ao meu lado. Não disse nada durante muito tempo. Uma joaninha pousou no seu peito, um ponto vermelho na imensidão do negro vestido. Quanto o Sol já se encontrava no meio do céu e o ar estava cada vez mais pesado, levantou-se, toda a sua figura tapou a luz e a sombra do seu corpo invadiu o meu. Nesse momento, agradou-me a ideia de ter parte da sua essência sobre mim. Disse-me, com a sua voz suave e doce, que tínhamos um assunto pendente a tratar.

Junto ao sofá, no chão, o metal frio do arco rouba-me o calor das mãos. Há alguns minutos atrás, quando toda a minha a mão envolvia parte do metal do arco, parecia que todo o arco tinha como missão sugar todo o calor do meu corpo. Ou talvez tenha sido uma ilusão por me ter concentrado inteiramente na tarefa de apontar ao alvo. Comprei apenas uma flecha, na condição de que se falhasse ele teria a sua liberdade de volta. Com apenas uma flecha, a tarefa teria de ser infalivelmente executada. Falhar significaria passar outros dois mil anos de angústias. Desta vez é mais fácil. Não vim de um ventre intacto, não tenho uma legião de almas sugadoras atrás de mim. Desta vez sou só eu e ela.

O cadáver está no canto da sala, ainda sentado na cadeira onde repousou para aceitar o seu destino. Julguei que não me reconheceria quando o trouxe dos mortos. Olhou-me nos olhos e reconheceu os olhos que outrora se dirigiram para ele com carinho. Tinha uma expressão melancólica, tinha o olhar carregado de tristeza. Todo aquele espetáculo de melancolia era contagiante. Repudiava-o ainda mais. Se há coisa que detesto são alminhas que pedem piedade com os olhos, não suporto olhos carregados de tristeza súbita. Disse-lhe que daí a quarenta dias iria atirar uma flecha no espaço entre as suas sobrancelhas. Se falhasse, estaria em liberdade e o nosso assunto pendente estaria para sempre resolvido.

16 de abril de 2014

Comboio

Duas e um quarto da manhã, saio de casa e bato a porta.

À minha frente passam comboios em ritmo frenético e direções contrárias, numa linha imaginária e estranhamente discreta.

Caminho pelo passeio e seguro o preto chapéu de coco quando a força do vento me estala a cara.
Um dos comboios parou. Parou precisamente onde em criança eu brincava aos berlindes. Um homem alto e misterioso saltou de um dos vagões e quando aterrou sobre a gravilha seca, uma garrafa de vinho quebrou-se aos seus pés. O homem cambaleou agarrado ao imaginário,  tropeçou, porque assim faz parte, e estatelou-se contra o aço do vagão.

Corri para o ajudar, ardia por dentro, um dia pode ser o meu pai, pensei. Quando cheguei junto do comboio, não encontrei nada. Que vazio o meu!

A poeira escura da noite pesava nos meus ombros, não via quase nada e uma melodia mecânica e estridente foi gradualmente crescendo. Começou a chover e os pingotos caíam a rasgo ao som do piano. Tantas teclas vi eu! Saltavam repetidamente quando o pianista dedilhava sem dó. Tocava com tanta raiva que me comovi.

Agora chovia água, lágrimas e marfim, os comboios passavam cada vez em maior número e cada vez mais rápido, a noite estava fria e o frio deixava-me confuso.  Havia cada vez mais barulho, um barulho movimentado e amargo, e eu comecei a correr. Sentia nas pernas o inverno de Vivaldi.

Ceguei e perdi-me por completo, um comboio levou-me à frente. De repente fez-se paz. Senti-me branco por dentro, vazio.

E o piano parou de tocar, a madeira desfez-se e o Homem saiu satisfeito.

7 de abril de 2014

O Pasmado

A porta estava aberta. No meio da sala havia apenas uma velha mesa de carvalho e, em cima dela, o corpo mole e inerte de um homem morto.

O cinzento era a cor que predominava e não havia sangue, não agora. O corpo estava estranho, pálido e frio.

Arrastei uma cadeira desde o corredor até ao centro da sala e sentei-me bem perto do corpo. Não tenho vergonha, não tenho medo de gostar de estar perto de um morto! No entanto, não lhe toquei, talvez por respeito, talvez por não estar habituado à textura indiferente de um homem quieto.

Preguei os cotovelos ao tampo da mesa e apoiei a cabeça entre as mãos, inclinando-a ligeiramente para a direita, assim, olha, como quem pensa com muita força.

Apaixonou-me o modo selvagem com que os cabelos do pasmado se desorganizavam entre a farta cabeleira.

Morto, fala! Pedi eu baixinho.

Deslizei um dos cotovelos sem intenção, e no momento em que me perdi entre a queda e a reacção o meu braço empurrou-o. Morto, fala! Repeti eu, mas desta vez a medo.

Um barulhinho niquento foi crescendo por todo o corredor. CLAC, CLAC, CLAC, era o som autoritário de um elegante par de sapatos.

Uma mulher entrou de rompante, a porta não estava fechada, é bem verdade, no entanto ela entrou como quem fala de forma grosseira. Uma figurinha enfiada e intrometida, ligeiramente amarelada e sem qualquer graça.

Olhei para a porta, fitei-a. Ridícula a posição, uma mão enterrada na fina cintura e a outra cravada no topo da ombreira da porta, as pernas ligeiramente afastadas e uma expressão corporal na tentativa de conquista. Olá, disse eu, ela sorriu e o estranho amontoado de dentes convidou-me a sair, Seja bem-vindo, respondeu ela.

A existência de mais do que um tipo de abordagens revelou-se ao longo dos tempos num fa[c]tor essencial à compreensão, ou por outras palavras, decifração da complexidade humana. Ou seja, se o Homem não fala pede-se-lhe que escreva, se o Homem não escreve então pede-se-lhe que fale, pois o importante é arranjar dinheiro, de forma honesta, se possível, se assim não for, o importante é arranjar dinheiro, disse ela num tom frio, certeiro, rápido e mesquinho.

Não consegui reagir, eu nunca reagi bem à realidade. Contudo, ela não precisou que eu reagisse, pôs as mãos dentro das calças, precisamente onde não as devia ter, às mãos, pelo menos ali, naquele momento, e sacou de uma pistola pequena, brilhante e inesperada.

PUM, PUM, PUM, PUM, disparou gananciosamente sobre o morto. PUM, PUM, PUM, atirou-lhe tantos tiros quanto pôde. Agora há sangue, pensei para mim mesmo.

Se o Homem não fala nem escreve é apenas um tenro saco de tiros, escarrou ela secamente.

Agarrei-me à mão do pasmado com tanta força quanta tinha, queria muito conhecê-lo. Fitei-a, à mão, e de seguida cravei um grave soco na mesa de madeira. O barulho foi seco. Eu nunca te pedi que escrevesses, lamentei.

O chão estava alagado de sangue, morrera há pouco, concluí, e as paredes repletas de restos carnais, salpicos, manchas e marcas de carnificina. Era uma espécie de fusão do macabro com o acolhedor. Senti-me confortável, apenas triste pela segunda morte do pasmado.

Um chorrilho de baboseiras, pensei eu, a vida é assim.

2 de abril de 2014

Introspeção ou a dualidade do tempo

As gotas deslizavam pela janela do pára-­brisas, como que a ver qual delas ganhava aquela corrida infrutífera e desprovida de qualquer prémio. Os limpa­ pára­-brisas trabalhavam sem cessar e, ainda assim, as gotas teimavam em escorrer vidro abaixo, como que a competir comigo. Nada verás para além de nós. Boa sorte a descalçar esta bota. 

À medida que avançava, perdia-­me. Deixei de ver a estrada de dois sentidos que estava à minha frente. Deixei de me preocupar com o facto de esta parecer estreita para dois carros ligeiros. Estreita demais. Deixei de ver as gotas que competiam entre si para saber qual delas chegava primeiro a um local que deveria estar predestinado e estabelecido entre si como meta. Fixei o olhar no relógio digital que marcava já as vinte e duas horas e trinta e quatro minutos e insistia em relembrar­-me constantemente de que estava atrasada para, também eu, naquele dia chuvoso e pouco apelativo, chegar à minha meta.

Dei por mim perdida, mas não no caminho que tomava. Perdida algures nas camadas intrínsecas das memórias. Perdida no tempo e na sua relatividade. Como é possível que a minha primeira memória date de quando tinha pouco mais de três anos e, no entanto, não me lembre de momentos mais tardios e que deveriam estar mais presentes nas minhas lembranças? Deveriam, sim, se todos os momentos valessem o mesmo, temporalmente falando, e se o tempo - assim como as memórias - fizesse uma viagem retilínea.

E fará? Será que sim, será que não?

Neste momento, a estrada que percorro é bastante ziguezagueante, cheia de curvas e contra­curvas, não sendo possível prever como será o troço seguinte. Um pouco como a minha perceção da passagem do tempo. Ora passa depressa, ora abranda, como se estivesse perante o sinal amarelo, prestes a cair para o vermelho. Os relógios parecem marcar os segundos de forma maquinal; contudo, o tempo parece ele próprio possuir reflexão sobre si mesmo. Parece perceber que às vezes tem de passar mais depressa, outras vezes mais devagar. Todavia, o timing não é o ideal, pois gosta de viajar dessincronizado. Gosta de quebrar regras, quanta audácia transporta!

Recuperada da minha introspeção, notei agora que tinha também a companhia de uma bela trovoada para não me sentir abandonada no meu trajeto. Pedimos que aqueles que vêm ao volante tenham especial atenção, pois a tempestade desta noite avizinha­-se feia. São esperadas fortes rajadas de vento que podem atingir os cento e vinte quilómetros por hora. Também a chuva e a trovoada estarão presentes nesta noite fria. Mas fiquem com a nossa rádio, que ficarão por certo em boa companhia. 

Merda! Agora teria de me despachar porque ainda estava longe do meu destino. Como sempre, tinha abrandado inconscientemente, pois o meu cérebro preza muito o invólucro que o sustém e faz os possíveis para o proteger quando está em piloto automático.

Olhei pelo retrovisor. Não vinha nenhum carro atrás. Cobardes, com medo de uma tempestadezinha. Estava, portanto, sozinha. Quer dizer, não tão sozinha assim. Inclinei ligeiramente o espelho para baixo e vi­-o. No banco traseiro, deitado, como se não houvesse mundo para além daquele profundo sono em que estava imerso, estava Huno, o meu fiel companheiro de quatro patas. Dormia e suspirava despreocupadamente, alheio ao temporal que persistia lá fora. Já dizia o outro, que a inconsciência nos causa alegria e pensar apenas nos conduz à dor. Será? O Huno parecia estar sempre a sorrir, ainda que a dormir, por isso deveria ser verdade. Nesse momento, o Huno acorda, levanta-se e põe a pata no meu banco como que a fazer notar a sua presença. Com a mão direita, afaguei-lhe o pescoço e recebi uma lambidela de agradecimento.

Acelerei na curva seguinte e senti o carro a fugir ligeiramente. Inspirei, fechei os olhos por um segundo, encadeada com as luzes de outro veículo que vinha no sentido contrário ao meu, e meti novamente prego a fundo, porque o tempo urge e não espera por ninguém.

28 de março de 2014

Esqueleto com cigarro aceso

Ele come gelados no inverno porque a vida é demasiado curta para moldarmos os nossos gostos segundo os gostos do planeta.

- Quero ver o mundo a arder!

Diz isso enquanto esbate sobre a tela camadas grossas de tinta castanha.

- O que pintas?

- Um esqueleto.

- Com esse pincel? Não seria melhor um mais fino?

- Não sou Caravaggio!

Sentado numa cadeira de madeira, de frente para a janela, para vislumbrar o negro da noite, pincela ferozmente. Pincela na tela e na roupa, na roupa que outrora fora imaculadamente branca. Usa sempre roupas brancas, de linho, para pintar.

- Pinto de branco, em noites negras, para misturar o luto humano com o luto do céu.

- Mas o branco não é a cor do luto.

- E quem o diz? Os padres reprimidos e as noivas virgens?

Tem um gira-discos Dallas Classic, especialmente comprado para o único disco de vinil que tem. Está no chão, entre a secretária e o quadro de uma mulher de vestido vermelho esfarrapado que passeia descalça pelas ruas de Paris. Toca Gato Barbieri, sempre Gato Barbieri. Toca desde o primeiro dia em que entrei neste quarto. Toca até o som penetrar no cérebro e criar pedaços finos de vidro que vão cortando o tecido e provocando dores de cabeça tortuosas. Ele parece ser imune a toda esta tortura.

Levanto-me da cama e caminho a seu encontro.

- O que pintas?

- Um cigarro.

- No esqueleto?

- Sim.

- Faltam-lhe pulmões. Como é que fuma sem pulmões?

- Como é que uma sombra fala nos livros de Murakami e tu não te interrogas?

- Mas isso é literatura.

- E isto é pintura!

As paredes negras do quarto contrastam com os quadros luminosos. Todos os quadros que pintou até então estão preenchidos por uma palete de cores leves. Todos, excepto este que ele está a pintar agora. Talvez o fundo negro sirva para contrastar com o esqueleto.

- Não achas que o cigarro merecia uma chama mais acentuada? E essas costelas não estão um pouco irreais, assim afastadas do resto?

- Talvez.

Pinta a chama quase impercetível do cigarro. Pousa os pincéis. Levanta-se, despe a camisa, dobra-a cuidadosamente e coloca-a em cima da cama. Desaperta o cinto das calças de linho, tira-as, dobra-as e coloca-as em cima da camisa. Dirige-se para a janela, senta-se no parapeito. Com o negro do céu, o verde que colora os seus olhos acentua-se.

- O que queres fazer?

- Quero ver o mundo a arder.

Atira-se para fora da janela. Corro para a janela, vejo-o cair e grito:

- Olha que desta vez não será só a orelha, magoarás o corpo todo!

24 de março de 2014

Ela continua lá...

Eu limito-me a escrever sobre as coisas. Procuro alguma forma de me abstrair desta maldita sociedade que todos os dias me consome e rouba tudo aquilo que possa ser considerado humano, convertendo-me num autómato; numa máquina; em algo desprovido de sentimentos e emoções. O cancro da sociedade humana.

Mas ela continua lá…

É cansativo, no mínimo. Quando se tenta empenhar o nosso esforço sobre a oficina universal e sentimos o peso do nosso passado e de outros pensamentos. Haha! O trabalho fica comprometido. Rio-me pela insignificância do que acabo de me aperceber. Uma resistência inútil. Uma tentativa fugaz de alcançar aquilo que denominamos “civil” ou “humano”. É triste, no fundo. Como tal, levanto-me da secretária e tomo para outros lados.

Mas ela continua lá…

Preparo o meu jantar e tento alimentar a básica necessidade humana de “comer”. Pena que a mente se desvie para outros lados. Um “comer” diferente seria mais apropriado… Desde… Desde…

Não, não irei pensar nisso. Será decerto a minha ruína, como a de muitos outros antes de mim. Quando se lembram do calor, da sensação inigualável do toque de carmesim e da respiração ofegante. Da prenda divina a que todos os seres vivos tiveram acesso. Do trocar de almas e da mistura de  sonhos, pesadelos e compreensão da nossa barbárie. Uma selvageria prima de tempos outros. Tempos infinitos desde o processo da criação. Que foi? Acham-me louco por desejar assim tanto isso? Será que as pessoas se esqueceram do básico que as coisas são? Será que…

- Ainda aqui…

Não! Deixa-me! Eu não sou isso. Recuso-me a ser escravo desse pequeno sonho, inegável desejo.
Retiro-me frustrado da cozinha. Talvez música? Sim, música. Acalma-me. Chopin? Ou estarei mais para Bach hoje? Talvez Debussy.

Dirijo-me para o piano e toco. Toco… Viajo por entre o marfim e o ébano. Na procura de uma qualquer estrada musical, para além da escuridão do que me persegue. As notas passam por mim, acompanhadas por um mundo neutro e infinito. Um mundo que não é necessariamente a cores, mas também não se encontra desprovido delas. Vejo infâncias…

Observo passados e aberturas que dão entrada para tantas possibilidades…

É tão giro como a primeira música é sempre uma das mais especiais. Arabesque nº1.

- Lamento, mas contínuo cá. Ainda a tentar resistir-me?

Silêncio! Ahhhh! Como eu desprezo a obsessão que me fazes sentir. A forma como eu poderia pôr um fim a tudo…

Bato no piano, formando um acorde desconhecido pela mente de uma qualquer pessoa sã. O acorde é gritante. A mão procura… Procura algo… A mente ajuda…

- Porque te negas?

Não… Eu não posso. Será nojento. Apenas me vai amarrar mais.

- Shiu… Relaxa!

Ordem suprema do abrir da fenda cerebral! Toda a razão perdida. Apenas instinto. Instinto básico. Procura de sensações. Procura do gosto e de memórias. Memórias ativam.

O suor… O odor. Aquele regresso ao mais puro dos edens que nos foram concedidos. Sim! É isso. O maravilhoso toque que apenas… apenas…

- Eu posso permitir…

Sim! Tu!

- Rejeitas?

Não! Nunca! Não posso. Preciso de mais e mais e mais… Uma e outra vez. As energias não se esgotam. Rejeitar? Nunca!

- Então… Submete-te!

Agora e para todo o sempre! Liberta-me! Liberta-me!

LIBERTA-ME!



Silêncio…

O instinto vai-se…

A culpa assume forma. Uma forma não muito agradável. Rapidamente desaparece. Assim como a estranheza aceitadora.

A vida continua. Será apenas mais um. Um de muitos…

Tenho de trabalhar…

Sim, trabalhar.



Mas ela continua lá…

12 de março de 2014

Tabaco

O sol surgia a rodos de encontro às vidraças azuis do meu quarto, e lá fora, junto ao estreito, bem no fundo da rua, os primeiros barulhos da manhã ecoavam, como aliás todos os domingos assim o faziam. Hoje o dia está bonito, disse a Rosa do segundo esquerdo à Manuela da mercearia, e eu ouvia tudo meio ensonado, enrolado nos lençóis e lutando contra a realidade de ter de me levantar cedo a um domingo.

No entanto, e tendo a sabedoria popular mais a seu favor do que contra, disse para mim mesmo que o que tem de ser tem muita força. Levantei-me, tratei de mim e pus-me a andar.

No café do Roscas, a bica, a pedido, era sempre curta, e o pastel de nata sem açúcar e farto de canela, mas a bica vinha sempre cheia e o pastel sempre normal, pois nem o velho Roscas ouvia como em outros tempos, e nem vagar tinha para comprar canela. Tudo permanecia na mesma, até a pobre mosca, que jazida sobre o balcão, bem no cantinho onde quase ninguém a via, me dava pena, só por em tempos a ter visto voar.

Saí do café, puxei de um cigarro e pu-lo na boca. Olha que fumar faz mal rapaz, disse o Rogério, amigo do meu pai que por ali passava, Só me fará mal se o meu pai souber, respondi eu fitando-o com o olhar de quem espera cumplicidade. Sorri, e ao estalar do isqueiro a ponta rubra do cigarro ganhou fôlego.

Subi uma rua qualquer, o nome pouco importa, um lugar existe por si só e Lisboa conta-se pela cor, pelos becos e pelas ruelas, deitei o fumo fora e saboreei o gosto seco do tabaco, e ao virar da esquina, onde a calçada finda a favor do alcatrão, vi escrito numa parede branca em letras fartas e escuras a seguinte frase: «O Homem vive insuportavelmente, de forma mecânica e doentia, agarrado ao sentido e à lógica das "coisas"». Parei o tempo que precisei. Aquela frase cativou-me de alguma maneira.

Continuei a subir, e rua acima via perder-se na pequenez de um banco de madeira a silhueta enrugada de uma antiga varina, que sentada, junto à ombreira de uma porta, assim estava, sentada… junto à ombreira de uma porta! E eu, enquanto vivia de forma mecânica e doentia, agarrado ao sentido lógico das "coisas", ia fotografando a rua, o banco e a varina, e o cigarro fumava-o o vento.

Entrei no lavadouro, e ao ver tantas formas, tantas mãos e tantas rugas por tantos e tão estranhos cantos, senti-me tão leve, tão pequeno, tão ingénuo e tão inculto.

A mulher no lavadouro não parou para me ver entrar, e foi desconcertante a forma certeira e agressiva com que a via arrastar e atirar a roupa contra o tanque do lavadouro. Franzi a sobrancelha direita num gesto de total envolvência e entrega e fotografei, fotografei sem parar e podia até jurar que aquelas mãos falavam comigo. Quando se cansou, a roupa claro, porque os seus braços dariam para muito mais, a mulher parou, e num andar lento e determinado, de quem ainda sabe que é capaz, foi ao encontro de uma cadeira velha e sentou-se. Setenta e muitos, estava eu disposto a arriscar, talvez oitenta, quem sabe…

Onde vai buscar aquela força, aquela com que há pouco sanicou a roupa contra a pedra, perguntei eu com ar incrédulo e completamente rendido. Ao desgosto, respondeu, Ao desgosto que a vida nos oferece ao longo dos anos, e ao desprazer, principalmente ao desprazer que sinto, acrescentou secamente.

Parei o tempo que precisei. Aquela resposta cativou-me de alguma maneira. Fiquei a observá-la durante largos minutos e nem por isso ela voltou a olhar para mim. PÁS! De novo a roupa a sofrer. Saí. O ser humano sempre me cativou neste aspeto! O facto de se revelar a melhor e a mais cativante de todas as “coisas” e ao mesmo tempo a pior e a mais dececionante.

24 de fevereiro de 2014

A bicicleta

Fui atropelada pela primeira vez quando tinha menos de cinco anos. Assumo que tivesse menos de cinco anos porque foi no Huambo. Saí do Huambo quando tinha cerca de cinco anos porque depois de um ano em Luanda entrei pela primeira vez no primeiro ano da escola elementar. Deduzo, então, que a data de nascimento da minha curiosidade eterna tenha sido nesse dia, ou antes, talvez a minha mãe me saiba dizer com maior precisão. Mas nunca faço perguntas complicadas à minha mãe. Provavelmente, ao nascer, a minha mãe fez um pacto comigo: que me amaria incondicionalmente em troca de paz de espírito e ausência de perguntas complicadas de responder. Perguntas como o relato detalhado da morte do meu pai. Ainda ninguém me soube explicar como e quando ele morreu. Enquanto crescia fui ouvindo as mais variadas estórias. Numa delas culpam uma das várias minas espalhadas pelo Huambo. Noutra culpam um padrinho ou tio de um tio meu – ignoro sempre os graus de parentescos na minha família, é uma família grande.

Estava a caminho da casa dos meus avôs paternos (ou maternos? Nunca sei.). Estava sozinha, porque é assim que o Huambo funciona. Ou, pelo menos, era assim que S. Pedro funcionava. Em S. Pedro as crianças tinham liberdade infinita nas ruas porque todos tomavam conta de todos. Em plena guerra civil, eu tinha mais liberdade nas ruas do Huambo do que na paz das ruas de Luanda. A caminho da casa dos meus avôs vi um homem montado numa bicicleta. A minha memória falha em dizer-me se aquela era a primeira bicicleta que eu via em S. Pedro. Se fosse a primeira, justificaria o facto de me ter lançado para o meio da estrada, movida pela curiosidade do que aconteceria a seguir. Lembro-me de ter pensado o que irá acontecer se eu me puser no meio da estrada? Os momentos seguintes foram totalmente apagados da minha memória. Salto da estrada para a delegacia, onde um dos meus muitos tios avôs trabalhava como policial. Eu disse-lhe que eu estava no passeio e ele saltou a estrada para o passeio, eu comecei a fugir e ele foi atrás de mim com a bicicleta. Disse essas mentiras com todos os dentinhos que uma criança endiabrada tem. Depois disso lembro-me apenas de que brincava com pintainhos - fascinava-me a sua penugem amarela -, que o meu avô paterno faleceu e tive de usar uma pulseira branca durante semanas e prometer que não iria chorar, e que um dia tivemos de abandonar a nossa casa, a família do Huambo e partir para Luanda para fugir de uma guerra que eu só via na televisão por ser muito criança e ter muita liberdade para sequer notar o perigo.

Voltei a ver uma bicicleta em Luanda, algures antes dos dez anos.